Resiliência x Coronavirus (COVID-19)

Atualizado: 17 de fev. de 2020

Boas práticas: dez (ou mais) ítens a serem considerados.

Não é novidade para ninguém que o Coronavirus (COVID-19) vem causando turbulência econômica, social e política ao redor do mundo, principalmente no continente asiático.


Recentemente – mais precisamente no dia 30 de Janeiro de 2020 - a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente que o surto de Coronavirus constituía uma emergência de saúde pública de interesse internacional, já ultrapassando a epidemia de SARS (2002-2003) com quase 1000 fatalidades decorrentes do vírus.


Obs: Como não gosto de enrolar, caso queiram mais informações sobre as características do vírus (origem, como se proteger, sintomas, etc), sugiro acessar diretamente à fonte (OMS).


Hoje, a China possui um comércio relativamente livre e mão de obra barata, o que atrai muitas empresas internacionais a montarem bases no país. Somente em Shanghai, mais de 700 multinacionais possuem escritórios na cidade. Empresas como Starbucks, Mcdonalds, Google, Facebook, PWC, Apple, Tesla, Booking.com, Delta, American Airlines, dentre outras gigantes marcam forte presença no país.


Mas vamos ao que interessa...


Como o Coronavirus tem afetado as empresas e quais seriam as minhas recomendações para lidar com o problema do ponto de vista de gestão de crise e continuidade de negocio?


O impacto do Coronavirus às empresas tem sido direto e sem piedade. Um recente relatório produzido pela Trendforce afirma que o impacto global da pandemia do Coronavirus na cadeia de produção de celulares (smartphones) será significante com uma redução de 10% na produção de smartphones da Apple e 15% a menos na produção de smartphones da Huawei. A Foxconn, que produz os celulares da Apple na China foi obrigada a postergar a data de reabertura de suas fábricas. O mesmo vale para as indústrias do turismo, onde milhões de turistas chineses e de outras nacionalidades asiáticas evitarão viajar, e consequentemente, reduzirão a demanda de milhões de dólares gastos mensalmente pelos mesmos, principalmente durante o ano novo chinês, principal data de comemoração dos chineses ao redor do mundo.


Gestão de Crise e Continuidade de Negócios


Ao mesmo tempo que diversas empresas correm contra o tempo para realizar o básico quanto à resolução da crise e da continuação do negócio (na base do possível), mencionarei alguns pontos essenciais a serem observados, sob o meu ponto de vista. Lembrando que muitos desses pontos foram essenciais para a continuidade de operações das empresas com que eu trabalho diretamente.


Durante esse período critico para multinacionais com presença em locais considerados de risco do ponto de vista pandêmico, diversos aspectos estratégicos e operacionais deverão ser ponderados, incluindo os regulatórios e obrigações contratuais devido ao impacto aos negócios, que já levaram/levarão ao fechamento de pontos de entradas/partidas das cidades (portos, aeroportos, ferrovias, rodovias), rede metroviária, além de armazéns de distribuição, a própria cadeia de mantimentos e fornecedores, escritórios...

Isso tudo (e muito mais) resulta ou influencia diretamente no impacto em larga escala de ponta a ponta, onde tanto o trabalhador, que não consegue se locomover, ou que não possui a infraestrutura necessária para realizar o trabalho remoto, o fornecedor impactado que não consegue distribuir/fornecer, assim como o cliente que não recebe sua mercadoria ou serviço conforme acordado.


Separei algumas dicas que (AFIRMO) serem essenciais para diversas empresas!


1) Tenha uma visão estratégica da sua presença em países de risco e acordos contratuais com os mesmos;


2) Junte forças com stakeholders especialistas, os quais terão papeis relevantes e essenciais para julgar o impacto/soluções de acordo com suas áreas de atuação (RH, Saúde e Segurança, Segurança Corporativa e do viajante, Jurídico, Operações, Supply Chain, Financeiro, Comunicação, Risco, Relações Públicas, Relações Externas/Governamentais, dentre outras, dependendo das características da empresa);


3) Utilize fontes confiáveis para tomada de decisão. As fake news estão em todos os continentes, em todos os idiomas. Procure fontes relevantes e confiáveis:

  • Mapa interativo com números de casos confirmados e mortes detalhados sobre o Coronavirus (Link);

  • Centro de Controle e Prevenção de doenças (Link);

  • Organização Mundial da Saúde (Link);

  • Ministério da Saúde do governo local;

  • Alertas de viagens em sites de governo como dos EUA, Reino Unido, Canadá e França


4) Considere alertar seus funcionários sobre possíveis ataques cibernéticos (phishing através de links enviados por e-mails ou páginas falsas de internet são muito comuns em meio à desinformação); forneça dicas de segurança da informação;


5) Estabeleça bloqueios em sistemas de viagens a negócios para que haja controle sobre o fluxo de funcionários em países de risco;


6) Não foque somente nos detalhes e pequenas vulnerabilidades. Considere iniciar sua análise sobre os impactos mais abrangentes e em seguida, desmembre-os. Focar em cenários específicos, no micro, é colher uvas ao invés de analisar o cacho como um todo;


7) Supply Chain: É de EXTREMA importância entender os impactos à cadeia de suprimentos. Utilize os stakeholders já mapeados e identifique possíveis impactos operacionais e financeiros seja direto (à empresa) ou indireto (aos fornecedores), podendo utilizar os BIAs, matriz de causa x efeito; e caso não possua um plano de continuidade de negócios, considere identificar fornecedores críticos para substituição imediata de serviços;


8) Procure manter seus executivos e comitês de crise sempre informados, se possível, uma vez ao dia; jamais deixe-os desinformados. O caos habita onde não há informação;


9) Sempre diga a verdade. Se não há informação sobre as condições de saúde dos funcionários, fale somente a verdade para sua diretoria para caso eles sejam questionados. A transparência pode evitar impactos catastróficos à reputação, afetando assim a credibilidade e viabilidade da empresa; Cabe assim à diretoria decidir o que dizer à imprensa, por exemplo;


10) Utilize seus fornecedores de inteligência e assistência médica / segurança para uma simples assessoria ou para evacuações, caso necessário;


11) Se você possui planos de emergência, evacuação de cidades/países, crise e continuidade de negócios em dia, utilize-os sem medo. Não há nada melhor que uma situação real para testar sua validade; outros pontos a serem considerados:

  • Revisite sua análise de impacto ao negócio (BIA – Business Impact Analysis) e seus planos de gestão de continuidade de negócios sob o olhar do surto de doenças/vírus;

  • Analise seus fornecedores do ponto de vista da continuidade do negócio;

  • Disponibilize formulários online para que seus funcionários (que tenham visitado países de risco ou contato próximo com pessoas que estiveram em países de risco) utilizem da auto avaliação, uma vez que há a regra básica de 14 dias como período de incubação do vírus, evitando assim que caso seja portador do virus, não o espalhe para outros funcionários; Considere trabalho remoto em caso de resposta positiva;

  • Visitantes ou pessoas que serão entrevistadas também devem ser avaliados;

  • Disponibilize máscaras e álcool gel nos escritórios em locais de risco alto ou médio;

  • Fornecer ou disponibilizar visualmente informações sobre como prevenir o vírus;


12) Esteja sempre preparado para o pior. Hoje a situação pode estar sob controle. Amanhã, o acaso poderá assumir o comando. Nunca assuma que o pior já passou!


13) Realize calls com seus comitês periodicamente, e evite utilizar apenas e-mails ou chats de mensagens como canais oficiais de comunicação. Esses poderão ser encaminhados para outras partes não interessadas, além de parecer desestruturado;


15) Mantenha seus funcionários informados das decisões relevantes por parte da empresa. Quanto menos informações precisas, mais informações imprecisas serão espalhadas entre os funcionários. Utilize de canais internos (workplace, slack, wiki, páginas informativas, email, dentre outros) para mantê-los informados; passe confiança e que sua empresa está fazendo de tudo ao seu alcance (apenas se realmente estiver!) para manter o bem estar frente ao problema;

... por que não sugerir a compra de mantimentos básicos, em caso de escassez (muita demanda e pouca oferta devido ao impacto no abastecimento dos mercados)?


16) Considere o pagamento de horas extras aos funcionários que muitas vezes terão de trabalhar dobrado para cobrir o horário de outrem para manter um nível aceitável de trabalho nas condições disponíveis;


17) Utilize seu sistema de alerta em emergências, caso necessário, ainda que para teste;


18) Registre todas as ações! Sempre!


19) Verifique a Clausula de Força Maior (permitam-me prolongar um pouco mais)

Mas Marlon... é muito simples nesse caso. É só uma empresa utilizar da clausula que tudo estará resolvido!

...Se fosse simples assim...

Para quem não sabe, essa clausula, frequentemente utilizada em contratos internacionais, é de extrema importância para qualquer empresa que se preze. Legalmente, esta clausula dispensa uma das partes de não cumprir com as obrigações contratuais, que se tornam impossíveis ou impraticáveis devido à alguma eventualidade, onde as partes não poderiam ter antecipado ou controlado.


Agora ficou mais fácil ainda...


Pois bem... Como um gestor de crise, uma das minhas funções é questionar: essa clausula cobre necessariamente epidemias como esta ou explicitamente menciona sobre situações que fogem do controle de ambas as partes? A clausula cobre a parada de produção/entrega totalmente ou apenas parcialmente valendo apenas para atrasos na entrega? E quanto aos procedimentos para acioná-la? Quais os impactos caso seja aplicada? Obs: perdoem-me os advogados para com a minha imprecisão jurídica sobre alguns termos. Apenas questiono :D


Uma coisa é certa... não será a ultima vez que veremos um vírus causando comoção global (e.g. SARS, ebola, zika...); ainda veremos muitos furacões devastadores como os famosos Katrina, 2005 ou Irma, 2017; terremotos e tsunamis como do Japão em 2011 ou Tailândia, 2004; ou até mesmo os frequentes deslizamentos de terra e os alagamentos no Rio de Janeiro de todos os anos...


Alta tolerância dos governos e empresas para com a falta de preparo... Até quando?


Quanto realmente vale assumir o risco?


Quanto vale fazer o que é certo?


Quanto vale uma vida?






*Aos amantes das relações internacionais, sejam eles estudantes ou profissionais, nunca vivenciamos tão claramente as teorias de Keohane e Nye sobre a interdependência complexa. Para quem quiser saber mais, sugiro a leitura Power and Interdependence #ficaadica

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