Relações Internacionais e Gestão de Crise: uma nova possibilidade profissional

Frentes teóricas como Realismo, Positivismo, Construtivismo fazem parte da trajetória de qualquer internacionalista. Temas, cuja abrangência chega a ser admirável devido à relevância contemporânea proporcionam um entendimento geral de politica externa, contextualizam relações intergovernamentais, geopolítica, segurança, economia internacional, dentre tantos outros assuntos. No entanto, se tentasse resumir essa vasta disciplina em poucas palavras, estaria abordando de maneira superficial toda a sua relevância global.

Há alguns anos, quando ainda era um estudante de RI, tinha em mente seguir a carreira diplomática. Eu adorava a ideia de representar o Brasil no exterior, aprender novos idiomas, conhecer e me aprofundar em novas culturas, entender os problemas enfrentados por outros povos, do ponto de vista local, e tentar ajudá-los de alguma maneira. Rapidamente mudei minha perspectiva após conhecer a história da nossa maior referência nas Nações Unidas, Sergio Vieira de Mello. Estava decidido: a ONU seria “A” instituição.

Alguns anos se passaram e eu não consegui entrar na ONU. No entanto, uma nova oportunidade se abriu: Gestão de Crise e Segurança Internacional. Eu NUNCA havia ouvido falar sobre essa área. Seria essa uma área de RH, investigação, risco? Pois bem, acho interessante compartilhar com os meus colegas das Relações Internacionais sobre como tive a oportunidade de conhecer mais de 30 países a trabalho (incluindo Omā, Nigéria, Malawi, Islândia, Malásia, China, Tailândia...), seja ministrando treinamentos, realizando análises de risco, desenvolvendo planos de gestão de crise ou até mesmo palestrando.

GESTÃO DE CRISE

Para quem não está familiarizado com a área, não devemos confundir gestão de crise com gestão de risco. São áreas complementares, porém distintas. Gestão de crise, por natureza, é o processo de desenvolvimento e aplicação de processos, sistemas, e capacidade organizacional para lidar com crises. Diferentemente de um “incidente” ou “emergência”, os quais ocorrem no dia a dia, e que - normalmente - possuem planos e procedimentos para lidar com essas situações, a crise, por sua vez, é uma situação improcedente ou extraordinária. Uma crise pode representar grande ameaça às operações, aos funcionários, à reputação, e que necessita de uma resposta estratégica, flexível, ágil o suficiente objetivando preservar a viabilidade e integridade da empresa. Um incidente pode escalonar para uma crise por diversos motivos, seja por falta de investimento em controles de mitigação, a inexistência de know-how, negligência, mal gerenciamento, dentre tantos outros. Portanto, é importante que todas, independente do tamanho da empresa, se preparem! Não é questão de "se", e sim questão de "quando" ocorrerá uma crise.

Para utilizar de dois exemplos simples, poderia um desastre natural ser considerado uma crise? A resposta é “depende”. Depende do impacto do evento à uma organização e o risco para o futuro das operações. Talvez para a devida comunidade local, cidade, estado, ou país afetado, esse desastre possa significar uma crise grave devido ao seu impacto à sociedade civil, por exemplo. Por outro lado, caso um desastre potencialmente avarie escritórios, resulte em óbito de funcionários, atinja em escala a produtividade ou o status econômico da empresa, prejudique a reputação por determinadas ações cometidas (ou não), dentre tantos outros, nesses casos, poderão sim ser caracterizados como uma crise.

Em caso de vazamento de dados sensíveis pertencentes à uma empresa, quando há exposição desses dados por criminosos ou por outros meios, estamos falando de violação de privacidade de clientes, funcionários, fornecedores, parceiros, etc. Esse exemplo possivelmente será caracterizado com uma crise para as empresas que presenciaram (ou presenciarão) essa situação, a qual provavelmente resultará em multas milionárias, cobertura negativa por canais midiáticos, boicotes ou mesmo à perda de investimento ou licenças.

Portanto, a área de gestão de crise deve focar em diversos aspectos, uma vez que independente dos planos testados, é impossível prever todas as crises que serão enfrentadas. Logo, para que haja o mínimo de sucesso, alguns passos são importantes, como a identificação de riscos, passando pela prevenção, treinamento, desenvolvimento de procedimentos para responder à uma determinada crise, a coordenação da resposta em si, às lições aprendidas no pós-crise e a melhoria contínua.

Nos dias atuais, as redes sociais estão mais presentes do que nunca na vida de grande parte da população mundial. O que antes levava dias ou semanas para uma empresa ser “boicotada”, hoje demora minutos para ter um alcance global, seja por uma foto, um vídeo, um comentário de alguém influente, que poderá colocar a empresa em cheque. Vivenciamos isso constantemente ao perceber uma empresa envolvida em algum escândalo relacionado a inúmeros fatores. Essas empresas precisam ser ágeis e organizadas para tratar / reparar um determinado problema, ao mesmo tempo assumindo erros, demonstrando que se importa de verdade através da empatia SINCERA (extremamente importante ressaltar que a fragilidade emocional conta e muito para o público), clareza na comunicação, manter um canal aberto com o público e frequente informação verdadeira, listar ações tomadas, além de outros aspectos. Ainda assim, não há garantia que haverá sucesso perante a crise. Os impactos são significativos e podem levar uma empresa à falência.

RELAÇÕES INTERNACIONAIS E GESTĀO DE CRISE

A disciplina de Relações Internacionais é especial porque é única! Atualmente, muitos profissionais desta área dedicam seu tempo para focar na vida acadêmica. Seu intuito consiste em perpetuar o conhecimento teórico, utilizando ferramentas práticas - como exemplos históricos e atuais - para analisar os problemas globais. Dentro desse contexto, será possível formar novos pensadores e profissionais, com o devido know-how para promover novas alianças e soluções para os intermináveis problemas enfrentados pela sociedade. Por outro lado, a diplomacia talvez seja a opção mais procurada pelos estudantes de RI. Seja pela autoridade e representação, relevância no cenário internacional, trata-se de uma profissão prestigiosa (ignore por um momento a atual situação dos diplomatas brasileiros). Comércio exterior, Organizações Não Governamentais, Direitos Humanos, Direito Internacional são apenas alguns dos outros caminhos conhecidos e trilhados por estudantes de RI.

Todos os dias, nos deparamos com novos “contratempos”, que se desdobram mais rápidos que Coronavirus em festas clandestinas (que feio, Brasil!). Esbarramos com uma significante inconsistência na estabilidade em qualquer circunstância observada no âmbito internacional (ex. Crise politica no Myanmar, Bielorrússia, Armênia, Hong Kong x China; Pandemias; Recorrentes e mais intensas consequências do aquecimento global; Sanções econômicas; Crise humanitária; Desemprego; Fome; Corrupção... a lista é extensa demais para catalogar aqui).

Esse volátil, incerto, complexo e ambíguo “mundo” em que vivemos tornou-se um ambiente híbrido para o desenvolvimento de novas disciplinas e profissões dentro da área de Relações Internacionais.

"It has actually never been a better time to study international affairs... International affairs programs are better situated than other disciplines and professional programs to help us understand and develop solutions to the complex, vexing, and ever-changing array of global challenges and opportunities".
- Foreign Policy

Para além desses fatores, uma das atribuições do profissional de gestão de crise é estar constantemente atento ao que acontece no mundo, e é exatamente sob essa perspectiva que o profissional de Relações Internacionais se destaca. O conhecimento já mencionado é uma qualidade intrínseca do mesmo. Nosso interesse genuíno sobre geopolítica e outros assuntos para além das fronteiras facilita a identificação e previsão de determinadas vulnerabilidades, riscos e ameaças regionais, e isso é de grande valia para a área de segurança internacional, que constitui uma grande parcela na área de gestão de crise.

Conflitos civis e militares, instabilidade politica, protestos, sanções econômicas, desastres (naturais ou não), ataques cibernéticos são apenas alguns dos diversos exemplos que sobressaem dentro do “guarda-chuva” da área de segurança internacional, e que estão diretamente ligados às crises recorrentes vivenciadas pelos setores públicos e privados.

Conhecer a fragilidade atual e histórica das relações intergovernamentais, conflitos armados e humanitários no Oriente Médio, por exemplo, permitirá uma análise mais rica da atual conjuntura regional, cujo relatório de inteligência e análise holística, por exemplo poderá contribuir para uma decisão estratégica de uma empresa para iniciar, continuar ou mudar sua presença comercial ou operacional. O mesmo vale para riscos e ameaças mais iminentes aos funcionários ou patrimônio físico em regiões conflituosas ou de alto risco, como decidir se funcionários devem ser evacuados de determinados países, escritórios deverão ser fechados ou decidir qual nível de suporte de segurança para se locomover em ambiente considerado hostil.

Relatórios de inteligência, sejam ativos (monitoramento ativo) ou reativos (intelligence briefing), são extremamente relevantes para a área de gestão de crise, seja durante uma crise ou simplesmente no dia a dia. No entanto, é necessário que esteja estabelecido dentro da estrutura de gestão de crise.

"Inteligência não é apenas sobre o produto, mas também sobre o processo. Uma brecha no ciclo de inteligência, por exemplo, pode causar significantes falhas da magnitude de Pearl Harbour, Guerra do Yom Kippur ou dos ataques terroristas de 2001"
- King's College London

Seja por falta de investimento, pela falta de know-how interno ou por acreditar que uma crise jamais ocorrerá em determinadas empresas, no Brasil, a cultura do preparo, da identificação e mitigação de riscos ainda é muito defasada, infelizmente. Empresas, as quais possuem a cultura do preparo ou que compreendem as adversidades da globalização, que dispõem de presença internacional ou que já passaram por graves crises, costumam considerar essa área como crítica para prosperar ao enfrentar crises sem precedentes. Gestão de crise, assim como a área de Segurança, em geral, não gera receita para as empresas (apenas para consultores), e muitas vezes são entendidas como "mais um custo". No entanto, o investimento em profissionais desta área, somado à uma estrutura eficiente de gestão de crise, pode resultar na preservação, evitar uma possível falência ou até gerar oportunidades de novos negócios e parcerias, caso uma determinada crise seja gerenciada com excelência e precisão.

A área de gestão de crise e segurança internacional me abraçou quando ainda tinha 19 anos. Hoje, com 31, me sinto honrado em poder influenciar estrategicamente decisões de empresas, devido à uma grande parcela de conhecimento adquirido ainda na faculdade e de ferramentas, as quais utilizo até hoje. Há muitas possibilidades de trabalho para os profissionais de RI mundo afora, as quais precisam ser compartilhadas. Atualmente, estou no meu segundo mestrado, mais precisamente em Relações Internacionais, justamente por acreditar em seu valor.

Espero que esse breve resumo da minha experiência pessoal e profissional seja interessante para os futuros (ou atuais) internacionalistas.


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